Um quarto das farinhas trocado por fibra de psyllium. Suplementar comidas de “pecado” é fixe.
A receita com o porquê de cada passo.
Faz uns anos que comecei a experimentar cozinhar com fibra de psyllium. Comecei a ler em vários papers científicos que associavam esta fibra à capacidade de regular o índice glicémico de refeições, aumentar a saciedade, e de diminuição de colesterol, e decidi brincar.
A primeira vez que a juntei com água a ferver bateu-me: isto comporta-se tal e qual o polvilho do pão de queijo. Basicamente formam um gel super gosma que quase podia ser brinquedo de criança.
E aí ficou decidido: vou substituir parte do polvilho do pão de queijo para fazer um pão de queijo com menos calorias, mais saciante, com índice glicémico mais baixo e quiçá, atenuo algum do efeito de este queijo todo.
O efeito do psyllium sozinho está mais que estudado. Convém esclarecer que, para termos a certeza que o efeito através desta receita se mantém, seria justo e correto fazermos testes, mas o budget do falsotacho ainda não cobre teses de mestrado. Talvez um dia.
Vamos à receita, que já agora, funciona BEM PRA XUXU.
Hoje é pão de queijo carregado de fibra. Noutro dia virá um pão de queijo com pouca gordura saturada e mais rico em proteína. Este resolve a fibra; o queijo fica para o próximo.
Junta o polvilho doce, o polvilho azedo, o psyllium e o sal numa taça grande. Mistura muito bem em seco com um batedor de arame, para garantir que a fibra fica homogeneamente distribuída.

Os dois polvilhos fazem coisas diferentes. O polvilho doce dá-lhe a textura mais compacta e gelatinosa; o azedo dá-lhe mais abertura e um sabor que, na minha opinião, acrescenta bastante.
O psyllium a 25% das farinhas resulta num pão de queijo bem carregado de fibra, um pouco mais escuro, mas sem afetar negativamente o sabor. Resulta mesmo bem.
Leva o leite e o óleo ao lume num tacho mais pequeno, até levantar fervura forte, com bolhas grandes.
Este é o primeiro passo para o leite estar mesmo a ferver quando o tacho grande estiver pronto. Enquanto ele aquece, trata-se do truque aqui ao lado.
Há um truque que faz a diferença, e quase ninguém o faz. Em vez de continuar o processo numa taça, eu faço os próximos passos num tacho quente. Ajuda na gelificação das farinhas e dá uma textura mais sedosa.
Aquecemos um tacho até estar a 100 graus. Metemos lá um copo de água e, quando ferver, desligamos, deitamos a água fora e continuamos nos próximos passos dentro dele.
A gelificação dos polvilhos e do psyllium precisa de temperatura, e as farinhas entram frias. Numa taça à temperatura ambiente o leite perde calor depressa e a gelificação fica a meio caminho. O tacho quente segura a temperatura durante os dois minutos em que se mexe, e é daí que vem a textura sedosa.
O copo de água é o truque dentro do truque. Podíamos aquecer o tacho diretamente na chama, mas assim sabemos que ele nunca passa dos 100 graus: enquanto houver água a ferver lá dentro, a temperatura fica travada aí. Sem termómetro, sem queimar nada, sem estragar o tacho.
Passa a mistura seca para o tacho quente e verte-lhe o leite a ferver por cima, imediatamente. Mexe vigorosamente com uma colher de pau durante 2 minutos. A massa vai passar a uma consistência elástica, pegajosa e bem húmida.

Para a textura do pão de queijo acabar bem sedosa e meio pegajosa, em vez de acabar fofa tipo pão, é preciso que o leite entre quente e que se mantenha quente.
Já ajuda nesta receita a quantidade de leite ser maior, pois o psyllium precisa de muito mais líquido que o polvilho: absorve muito mais.
Deixa a massa amornar por 5 minutos. Adiciona o ovo inteiro e amassa com a mão até ser totalmente incorporado.
Os 5 minutos são para o ovo não cozer ao entrar. A massa ainda deve estar quente ao toque, só não a escaldar.
Junta a mozzarella e o parmesão. Trabalha a massa até obter uma mistura uniforme e moldável. Deixa repousar 10 minutos antes de enrolar, para o psyllium estabilizar a estrutura.
Os 10 minutos de repouso não são folclore. O psyllium continua a puxar líquido depois de a massa parecer feita, e uma massa enrolada cedo demais volta a amolecer nas mãos.
Molda bolas de 34 g com as mãos levemente untadas. Dispostas num tabuleiro, leva ao forno pré-aquecido a 180 °C por 30 minutos, até criarem crosta dourada.

Por 100 g já assados, e é preciso dizer que a referência aqui é uma receita tradicional já feita com queijo meia gordura. Contra um pão de queijo a sério, com queijo gordo, a diferença seria maior.
A gordura saturada fica nos 6,4 g por 100 g, e isso é o queijo a falar. A fibra está resolvida; a gordura não. É por isso que há uma promessa lá em cima.
Agora tratem de tratar da receita.
Sempre vosso, txo
Casca de psyllium (psyllium husk), na zona dos produtos dietéticos ou em loja de produtos naturais. Vem em pó fino ou em casca mais grossa; qualquer uma serve.
Os ingredientes aparecem pela ordem do supermercado. Desmarca o que já tens em casa e copia o resto para as tuas notas.
Cada disco é a fatia da energia que esse nutriente dá.
| Declaração nutricional | por 100 gjá assado | por pão de queijo≈ 27 g cada |
|---|---|---|
| Energia | 1284 kJ / 307 kcal | 351 kJ / 84 kcal |
| Lípidos | 16 g | 4,3 g |
| dos quais saturados | 6,4 g | 1,8 g |
| Hidratos de carbono | 25 g | 6,8 g |
| dos quais açúcares | 2,0 g | 0,5 g |
| Fibra | 6,9 g | 1,9 g |
| Proteínas | 12 g | 3,3 g |
| Sal | 1,9 g | 0,5 g |
Valores estimados a partir dos ingredientes da receita, contando os 20% de peso que a massa perde no forno. Variam com o queijo que usarem.